Comecemos este artigo sobre a mentira, sendo sinceras: Sim, já mentimos! Todos nós já mentimos por alguma razão, seja por vergonha seja para não magoar a outra pessoa.
Este reflexo aparece logo nos nossos filhos por volta dos dois ou três anos de idade. É uma atitude natural, que faz parte do crescimento. Por isso, se tem um Pinóquio lá em casa, está na hora de aprender a lidar com a mentira.
O que é uma mentira?
A mentira é não contar a verdade com o objetivo de enganar o outro. No entanto, a definição da mentira não é assim tão linear. É possível omitir a verdade, alterar a realidade e aproveitar-se de duplos sentidos de palavras para esconder a verdade.
Se olharmos com atenção a sociedade onde vivemos, a mentira está em todo o lado: na alteração de imagens digitais, nos produtos estéticos ou na manipulação de dados estatísticos.
Por que usamos a mentira? Os nossos filhos (e nós pais também) mentem para não magoar alguém que gostam, para conseguir algo que querem, para não serem responsabilizados e/ou castigados ou para chamar a atenção.
A mentira dos 2 aos 12 anos
Por mais que queiramos que os nossos filhos sejam inocentes e puros para sempre, isso não é possível. Eles crescem e lutam pela sua independência. Não temos outro remédio senão aceitar que a mentira está presente e não nos contam tudo.
Os nossos filhos começam a usar a mentira por volta dos 2/3 anos quando se apercebem que os adultos afinal não têm um dedinho mágico que lhes conta tudo. Assim, as mentiras vão surgindo com o desenvolvimento cognitivo e sociais da criança. Os nossos filhos, nesta idade, estão a conhecer o mundo e quando não o percebem totalmente vão preenchendo as lacunas com a imaginação. Desta forma, é necessário perceber primeiro se a origem da mentira é uma interpretação errada da realidade ou a intenção de ganhar algo pessoal.
Uma das estratégias é formar equipa com os professores ou outros pais da turma dos nossos filhos para ir descobrindo o que acontece no dia a dia deles. Temos de desdramatizar a situação e reforçar a confiança entre pais e filhos.
A mentira dos adolescentes
Na adolescência, é comum os jovens estarem em apuros. A rebeldia própria da idade, o desafio da autoridade e a procura de identidade criam oportunidades para a mentira.
Todos os filhos acabam por mentir aos pais sobre uma saída com amigos. Neste caso, a mentira serve para ganhar a liberdade que os pais limitam, mas também pode ser usada para evitar responsabilidades e evitar castigos por ter quebrado as regras.
Como saber quando uma mentira é grave? Pelas suas consequências. Os nossos filhos sentem uma atração especial pela mentira. Algumas são inofensivas para não magoar um amigo ou porque existem circunstâncias para embelezar a verdade, outras são criadas para o seu próprio benefício. É essencial os nossos filhos perceberem a diferença entre as duas, pois enquanto as primeiras são de certa forma aceites pela sociedade, as segundas não.
Os adolescentes sentem-se frustrados e angustiados e as mentiras podem ser uma forma de lidar com todas as mudanças que estão a viver.
A mentira dos pais
É pelo exemplo que melhor se aprende. Uma vez que somos um exemplo para os nossos filhos temos de ter algum cuidado com certos comentários que fazemos de modo a que não sejam erradamente copiados pelos nossos filhos.
Uma das funções da família é transmitir valores, de entre os quais a honestidade. É fundamental ensinar a sinceridade e mostrar que a mentira não é a melhor maneira de se ver livre das consequências.
Sendo assim, lembre-se que os seus filhos estão sempre a observá-lo e que mais tarde ou mais cedo acabam por imitá-lo. Por isso, vamos evitar dizer que a mentira é feia para depois fingir que não estamos disponíveis para atender o telefone ou realizar determinada atividade. Ou comentar com os seus filhos: “Não contem nada ao pai/ à mãe!”
Temos aqui algumas dicas que vai ajudar a reduzir as mentiras lá de casa.
7 dicas para lidar com a mentira
Usar o bom senso
Todos temos consciência que existem vários níveis de mentiras. Há a mentira inofensiva que dizemos para não magoar o outro e que é aceite e há a mentira egoísta que é dita para ganharmos algo ou não nos prejudicarmos. Independentemente do contexto, as duas não deixam de ser mentira. Cabe então a cada família pensar no nível de honestidade e sinceridade que quer transmitir. Seja coerente e aplique a mesma lógica para si e o seu filho.
Por exemplo, numa saída em família, chegam à bilheteira e diz ao seu filho: “Se alguém te perguntar, respondes que tens 10 anos para pagarmos o bilhete mais barato.” É ou não mentir para proveito próprio? Outro exemplo: são os anos do seu filho e a avó dá-lhe um presente horroroso. O seu filho sorri à avó, agradece-lhe e diz-lhe que gosta muito. Tal como lhe ensinaram. Outra mentira, não é?
Explique ao seu filho a diferença entre os dois exemplos e todos os membros da família, por mais custoso que seja, tem de seguir as mesmas regras.
Pensar antes de falar
Por vezes, num momento de fúria, acabamos por dizer coisas que não pensamos e chamamos de “mentiroso” ou “aldrabão” aos nossos filhos. Esta reação vai impedir a mudança. Os nossos filhos acabam por interiorizar estes rótulos e sentem-se inferiorizados. Logo, continuam a usar a mentira.
Os nossos filhos estão a aprender e confiam em nós para os ensinar. Temos de falar com eles a sós e em público dar-lhes o benefício da dúvida. Eles precisam de saber que acreditamos que possam melhorar, corrigir os seus erros e que sabemos que a mentira não faz parte da sua verdadeira identidade.
Ter calma
Sim, sabemos que é mais fácil dizer do que fazer, mas pelo menos tente. Estar aos gritos vai levar imediatamente ao castigo, impedido o seu filho de ter uma oportunidade para se explicar.
Além disso, cria um clima de medo e insegurança que prejudica a relação entre pais e filhos e dificulta o reconhecimento do erro. Este tipo de ambiente favorece o aparecimento de novas mentiras para fugir do desconforto e dos castigos.
O seu filho precisa de se sentir seguro para lhe contar a verdade. Depois analise com eles, as consequências da mentira e a resolução das mesmas. Por fim, pergunte que tipo de castigo, do ponto de vista dele, deve receber e adapte com base nisso, justificando.
Dificultar a mentira
Tem provas que o seu filho não fez os trabalhos de casa. Mesmo assim, ainda vai ter com ele, furioso, e pergunta: “Já fizeste os TPC?” . O seu filho ao ver o castigo a chegar escolhe a opção mais fácil: usar a mentira. Se já sabe a resposta a essa pergunta, opte por perguntar o que aconteceu e o porquê de não estarem feitos.
Prepara-se para ouvir todo o tipo de desculpas, boas e más. No entanto, aproveite para conhecer melhor as dificuldades dele. Assim, tem a hipótese de mostrar ao seu filho uma alternativa à mentira. Juntos encontram a solução.
Se o objetivo é evitar que o seu filho lhe minta, então não lhe dê oportunidades para isso.
Dar oportunidade à verdade
Se queremos a verdade, temos de estar disposto a ouvi-la e nada de pressionar ao género de um agente secreto. É importante o seu filho perceba que pode falar e contar consigo para o ajudar a corrigir o seu erro e evitar a mentira.
A tendência é castigar, porque nos sentimos magoados e irritados. Porém, temos de dar a oportunidade não só de contar a verdade como de remediar a mentira. Além disso, corrigir o mal feito ajuda o crescimento emocional do nosso filho e pode ser mais eficaz que um castigo.
Agradeça ao seu filho o facto de ter contado a verdade e de fazer o que é mais correto, mesmo sendo difícil.
Confiar em si e no seu filho
Todos mentimos, mas sendo pais temos de ter mais cuidado, pois somos exemplos para os nossos filhos. Por isso, evite fazer promessas que depois não vai cumprir, do género “já vou brincar contigo” ou “no próximo fim de semana, tratamos disso.” Se não tem intenção de fazer estas atividades, as suas respostas não serão mentiras? Os seus filhos precisam de confiar em si.
Incentive a autoestima na medida em que os seus filhos precisam de acreditar neles e não precisar de mentir para se sentir melhor. Mostre que também acredita neles, porque aumenta a confiança mútua.
Aceite que o seu filho tem segredos e direito a ter um espaço próprio. Principalmente, durante a adolescência, a privacidade é importante e não respeitá-la pode quebrar a confiança ganha, levando a mais mentiras.
Valorizar a verdade
O valor da verdade tem de ser adquirida ao longo da crescimento. É essencial conversarmos com os nossos filhos sobre a importância da sinceridade. De nada vale dramatizar, é preciso corrigir e valorizar os feitos positivos.
Reforce a ideia que quem tem palavra e cumpre o que diz é de confiança. Além disso, consegue construir melhor relações com amigos, namorados ou pais.
Concluindo…
Lidar com a mentira não é fácil, mas é uma fase importante do crescimento. É a altura em que os nossos filhos separam a fantasia da realidade e se apercebem da dureza da vida. Cabe-nos a nós pais acompanhá-los nesse caminho e ser um exemplo de confiança.
(atualizado em março 2020)
